Exposição 1+1 realizada com curadoria Gabriela de Matos. 1-9 novembro de 2024, no Lapa Lapa em São Paulo.
Artista Maria Cau Levy
Texto Gabriela de Matos
Expografia Paulina Olguín
Identidade Visual Christian Proença
Produção Amalgama
Vídeo MMV
Costura Contagie e Francisca da Silva Brito
Moldura Arte & Design
Cenotécnico Jair Vieira
O vídeo-arte tem trilha de Arthur Decloedt e edição de Renata Miranda, e a vídeo-performance tem vídeo e edição por Amanda Carvalho.
Agradecimentos Gabriel Roemer, Santiago Perlingeiro, Atelie Vivo, Guga Landi, Gabriela Forjaz, Nilson Ferreira, Guilherme Tanaka, Ana Frango Elétrico, Cy Hiroo, Paula Marujo, Thiago Loducca, Bruno Araújo, Beatriz Fiel, Ciro Miguel, Marina Bertoldi, Kanto Iwamura, Flora de Carvalho, Júlio Mariutti, Galpão Comum, Giovana Tak e Cecília Whang.
Lista de Obras
| Abstrato 11, 2018. Acrílico sobre algodão. 65×140 cm |
| Abstrato 21, 2019. Acrílico sobre algodão. 65×140 cm |
| mcdgqss, 2023. Acrílico sobre algodão. 65×140 cm |
| Abstrato 14, 2020. Acrílico sobre algodão. 65×140 cm |
| Abstrato 19, 2019. Acrílico sobre algodão. 65×140 cm |
| Pentatônica 1, 2017. Acrílico sobre algodão. 80×80 cm |
| Pentatônica 3, 2025. Acrílico sobre algodão. 80×80 cm |
| Pentatônica 2, 2017. Acrílico sobre algodão. 80×80 cm |
| Paper 1, 2024. Acrílico sobre algodão. 65×140 cm |
| Paper 2, 2024. Acrílico sobre algodão. 65×140 cm |
| Paper 3, 2024. Acrílico sobre algodão. 65×140 cm |
| Paper 4, 2024. Acrílico sobre algodão. 65×140 cm |
| Wood Circulatory Pattern, 2023. vídeo 1920x1080px fullHD. 2′ |
| Maria Cau Levy, Kiko Dinucci e Gustavo Infante. Violão Processado, 2023. vídeo-performance 1920x1080px . 26′ |
| Guilherme Tanaka. Maquete do Monumento à Terceira Internacional, 2018. tinta sobre madeira. 54x54x65cm |
Olhar é escolher: marcar, indicar, conceber caminhos para que matéria e experiência se tornem legíveis — um gesto próximo do significado original do latim disegno, ligado a designare: “demarcar”, “indicar”, “conceber”. Em 1+1, o olhar de Maria Cau Levy não apenas observa; ele institui padrões — guias para compreender as multidimensões que atravessam corpos, materiais e vida.
Mas o que seria abstração? Abstrair, segundo Pier Vittorio Aureli em seu livro Architecture and Abstraction (2023), significa tirar algo da totalidade do qual ele faz parte. Neste sentido, a abstração é sempre parte de alguma coisa. Entretanto, não raro, o abstracionismo é historicamente interpretado como uma abordagem fútil, sem fundura e sem compromisso social, ensimesmada. Porém, Peter Halley apresenta uma nova interpretação para tal em seu ensaio Abstração e Cultura(2013), em que diz “(…) A abstração é um reflexo de forças históricas e culturais mais amplas.”
Se comumente entendidos como abstrações, os padrões, costumeiramente lidos como redutores da complexidade das coisas, na prática de Cau o sentido é inverso: o padrão é aquilo que resulta do complexo que é captado por sua percepção poética. Ao acolher variações, diferentes ritmos e imperfeições, suas obras fazem dele uma operação de atenção e cuidado — um modo de devolver profundidade àquilo que é visto como superficial.
Como comenta a própria artista em conversa de atelier: “Desenho como exercício poético (…) O sentido poético da repetição.” Este exercitar poético e humano para o fazer da visualidade, diga-se, tem sua transversalidade justificada ao lembrarmos de que artes visuais, design, arquitetura e música são expressões indeléveis de sua atividade.
E, para além dessa forma transversal de ser, outra característica pede especial menção no modo de Maria Cau Levy operar: o pensar e o fazer, no que constitui seu expediente, são absolutamente inseparáveis. Sobre isto, a presente exposição deixa visível que o desenho, enfim, não é apenas um gesto manual, mas sim resultante de uma atividade conceitual integral que, ao ganhar forma em um estilo, se possibilita transcender. Também por isso, seu trabalho implode um entendimento persistente no campo das artes visuais e da arquitetura, em que categorias como desenho, projeto e forma foram, muitas vezes, mobilizados para separar o manual do intelectual (Aureli, 2023).
O deslocamento proposto por Cau tem fundamento: enquanto a precisão geométrica e a padronização de elementos foram utilizados para se impor e consolidar formas hierárquicas de organização social (Aureli, 2023), aqui, ao invés de reproduzir a dureza normativa de certos modernismos e pedagogias do rigor, ela introduz a imperfeição como princípio: o padrão deixa de ser grade de exclusão para tornar-se espaço de acolhimento da diferença.
Ao acolher a imperfeição, se integra à natureza das coisas e abre o espaço para o comum. Em 1+1, isso se cristaliza: cada padrão não é a variação de um mesmo, mas um continuum que produz diferença — dois que não voltam a um, que são parte de muitos. Ao longo de mais de uma década de prática, seja em sala de aula — democratizando ferramentas de desenho para quem chega—, seja em capas de disco — dando outra dimensão à experiência musical; ou nas séries gráficas e nas investigações materiais recentes, a artista escolhe “olhar por dentro” dos elementos e a partir de dentro de seu repertório interior para poetizar suas formas.
por Gabriela de Matos

[EN] To look is to choose: to mark, to indicate, to conceive paths through which matter and experience become legible — a gesture close to the original meaning of the Latin disegno, related to designare: “to demarcate,” “to indicate,” “to conceive.” In 1+1, Maria Cau Levy’s gaze does not merely observe; it institutes patterns — guides for apprehending the multidimensional forces that traverse bodies, materials, and life.
But what is abstraction? To abstract, according to Pier Vittorio Aureli in Architecture and Abstraction (2023), means to extract something from the totality of which it is a part. In this sense, abstraction is always relational — always part of something. Historically, however, abstraction has often been interpreted as a futile approach, lacking depth and social commitment, inward-looking and self-referential. Peter Halley proposes a different reading in his essay Abstraction and Culture (2013), in which he states: “(…) Abstraction is a reflection of broader historical and cultural forces.”
Although patterns are commonly understood as abstractions — and frequently read as devices that reduce complexity — in Cau’s practice the movement is reversed. The pattern is not what simplifies, but what emerges from complexity as apprehended through her poetic perception. By embracing variations, shifting rhythms, and imperfections, her works turn pattern into an operation of attention and care — a way of restoring depth to what is often dismissed as superficial.
As the artist herself remarks in an atelier conversation: “Drawing as a poetic exercise (…) the poetic meaning of repetition.” This poetic and profoundly human exercise of visual making finds its transversal justification when we recall that visual arts, design, architecture, and music are inseparable expressions of her practice.
Beyond this transversal way of being, another characteristic deserves particular attention in Maria Cau Levy’s mode of operation: thinking and making are absolutely inseparable within her working process. The present exhibition makes this explicit by showing that drawing is not merely a manual gesture, but the outcome of an integral conceptual activity which, once materialized as a style, enables transcendence. For this reason, her work destabilizes a persistent understanding within the fields of visual arts and architecture, in which categories such as drawing, project, and form have often been mobilized to separate the manual from the intellectual (Aureli, 2023).
The displacement proposed by Cau is grounded in history. While geometric precision and standardized elements have been used to impose and consolidate hierarchical forms of social organization (Aureli, 2023), here, rather than reproducing the normative rigidity of certain modernisms and pedagogies of rigor, she introduces imperfection as a principle. The pattern ceases to function as a grid of exclusion and becomes, instead, a space for the inclusion of difference.
By embracing imperfection, her work aligns itself with the nature of things and opens space for the common. In 1+1, this becomes crystallized: each pattern is not a variation of the same, but a continuum that produces difference — two that do not return to one, but belong to many. Over more than a decade of practice — whether in the classroom, democratizing drawing tools for those who arrive; in album covers, expanding the experience of music; or in graphic series and recent material investigations — the artist chooses to “look from within” the elements, and from within her own inner repertoire, to poetize their forms.
by Gabriela de Matos